As dores e alegrias da amamentação

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05 junho 2017

As dores e alegrias da amamentação

Mulheres que se tornaram mães relatam suas tentativas e experiências de amamentar


Por Lais Vieira

Amamentar é muito mais que nutrir a criança. É um processo que envolve interação profunda entre mãe e filho, com repercussões no estado nutricional da criança, na habilidade de se defender de infecções, na fisiologia e no desenvolvimento cognitivo, bem como emocional. Estes são impactos imediatos e a longo prazo na saúde, além de ter implicações na saúde física e psíquica da mãe.

Porém, por diversos motivos, a amamentação pode acabar se tornando um dos grandes desafios da maternidade. A jornalista Raissa Dantas e a dona de casa Jaqueline Ávila são exemplos de mães que, por motivos diferentes, enfrentaram dificuldades nesse processo.

Aprendendo a amamentar


“Tinha muita expectativa pra amamentar porque, das coisas que eu li para me preparar, uma das principais dificuldades era amamentação. A gente teve um início totalmente diferente do que eu planejava. Foi bem difícil”. É assim que Raissa introduz como foi o começo do processo de amamentação do filho Oto, agora com seis meses de idade. Ela conta que só pôde amamentá-lo na segunda noite de vida dele, por conta de uma complicação no parto. Enquanto isso, Oto  recebeu uma fórmula que supria alguns nutrientes do leite materno.

Primeira vez em que Oto foi amamentado, ainda no hospital. (Foto: arquivo pessoal)


Com Oto internado, Raissa foi ao Banco de Leite, onde fez a ordenha do leite e, em seguida, a doação. Lá, os profissionais deram a ela diversas orientações sobre amamentação. “Tem um lance do funcionamento do organismo, produção de melatonina e os estímulos para o cérebro entender a quantidade da demanda de produção do leite. Ter essa produção de leite durante a madrugada era importante para que, quando ele fosse pra casa,  mamasse”, explica.

Ao chegar com Oto em casa, Raissa percebeu que ele tinha uma boa sucção, mas a pega não estava correta. “Ele não me machucava de maneira grave, mas machucava”, conta. O bebê deixou de mamar em horários fixos quando tinha mais de dois meses. Raissa conta que, além do Banco de Leite, também recebeu orientações de uma consultora de amamentação. “Ela avaliou minha mama, se o tanto de leite estava bom, se a sucção estava boa. [...] Era uma questão de ser otimista e insistir com o aleitamento. Ela me ensinou alguns truques para o seio já ejetar o leite assim que o bebê começa a mamar e para ejetar muito durante a mamada”, relata.


“Doía muito”


“Quando tive a primeira filha, tudo o que mandavam fazer eu fazia. Insisti 13 dias tentando amamentar e vi que ela estava perdendo bastante peso”, conta a dona de casa Jaqueline sobre uma das tentativas de amamentar os quatro filhos. Quando levou a filha ao pediatra, o profissional imediatamente receitou um tipo de leite, com a explicação de que se ela não quisesse perder a filha, teria que usar com esses complementos.

Contrariando a recomendação médica, Jaqueline insistiu, mas percebeu que não adiantava porque a produção de seu leite não era suficiente para satisfazer o bebê. “Só leite materno não enchia. O leite era pouco. Eu tinha o bico invertido”. A dona de casa revela que a filha começou a pega errada no seio, o que fez com que ele rachasse e sangrasse. Seus dois seios ficaram machucados. A situação virou um motivo de estresse para ela e a filha.

Quando teve a primeira filha e tentou amamentá-la, Jaqueline recebeu diversos conselhos sobre o que poderia fazer para produzir leite suficiente. “Mandaram eu fazer de tudo. Colocar casca de banana prata, tomar aquela cerveja preta porque diz que aumentava o leite… Acho que atrapalha muito também a pressão que o povo fica em cima da gente”, reflete.

Jaqueline alimenta sua primeira filha, durante a cerimônia de seu batizado. (Foto: arquivo pessoal)


Ao ter o segundo filho, Jaqueline foi orientada pelo pediatra a começar com a suplementação porque “ela não era uma mulher de dar leite”. Ela conta que tentou amamentar o filho durante uma semana, mas parou quando percebeu que não iria dar resultado.

“O pediatra chegou a comentar que a minha mãe também não deu leite porque ele acompanhava as gravidezes dela também. Isso vem muito da genética, mas tem muito a ver com o sistema nervoso também. De três em três horas, tem que amamentar a criança e, quando eu via que estava chegando a hora,  já ficava tensa só de pensar que eu não tinha leite. Quando eu engravidava, não tinha medo do parto, mas da amamentação”, desabafa.


Mastologista explica


O ginecologista e mastologista Alfredo Urbano da Costa Vieira explica que muitas mulheres não conseguem amamentar porque a quantidade de leite produzido não é suficiente para o bom desenvolvimento do  recém-nascido. “As causas de não conseguir amamentar vão de cada pessoa, é uma coisa individual. É muito difícil dizer quem vai e quem não vai conseguir amamentar”, pontua.

Vieira conta que existem algumas medicações que ajudam as mulheres que não conseguem amamentar, mas são contraindicadas pelo efeito adverso que causam. “O estímulo da sucção do bebê é o que faz produzir o leite. O que a gente pode fazer para auxiliar é beber bastante líquido e [ter] uma alimentação equilibrada. E estímulo: o bebê mamando, é a sucção que vai fazer produzir esse leite”, enfatiza.

Contudo, o que fazer durante a gravidez para que a amamentação não seja tão dolorosa para as mães? O ginecologista explica que há pomadas para mamilos que previnem fissuras. Além disso, expô-los ao sol também é uma das recomendações. Ao começar a amamentar, os principais cuidados são a higiene e a regularidade no uso da pomada.


O que diz o Ministério da Saúde


Segundo o Ministério da Saúde, há cerca de treze motivos que fazem com que as mulheres não consigam amamentar ou tenham dificuldades no início. Saiba quais são os seis principais motivos.

  • Bebê que não suga ou tem sucção fraca: de acordo com o Ministério da Saúde, alguns bebês não conseguem pegar a aréola da forma correta ou não mantêm a pega. Isto pode ocorrer porque o bebê não está bem posicionado ou  não abre a boca o suficiente. Além disso, há também a dificuldade da criança para sugar em uma das mamas, por alguma diferença entre elas ou porque a mãe não consegue posicionar adequadamente em um dos lados.
  • Leite que demora a descer: em algumas mulheres, o leite só desce alguns dias após o parto.
  • Mamilos invertidos ou planos: nesses casos, o início da amamentação pode ser dificultado, mas não impedido, já que o bebê pode fazer o “bico” com a aréola.
  • Ingurgitamento mamário: ainda segundo o Ministério da Saúde, neste caso os ductos lactíferos são comprimidos, o que dificulta ou impede a saída do leite dos alvéolos. Como não há alívio, a produção do leite pode ser interrompida. O leite acumulado na mama sob pressão fica mais viscoso. Este é o chamado “leite empedrado”.
  • Dor nos mamilos / mamilos machucados: nos primeiros dias após o parto, é comum que a mãe sinta dores nos mamilos ao amamentar. Uma das causas é o acúmulo de lesões nos mamilos por posicionamento e pega inadequados.
  • Mastite: é um processo inflamatório de uma das partes da mama, que pode progredir ou não para uma infecção bacteriana. Ela ocorre geralmente nas segunda e terceira semanas após o parto, mas pode acontecer em qualquer período da amamentação.

A cartilha do Ministério da Saúde lista esses e outros motivos pelos quais mulheres não conseguem amamentar. O documento contém também recomendações acerca desses casos.


Fonte de nutrientes


A nutricionista e professora do curso de Nutrição da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), Ana Elisa Rinaldi, explica que, durante os seis meses de vida do bebê, a criança não precisa receber outros alimentos, uma vez que o leite materno contém todos os nutrientes necessários, como carboidratos, proteína, gorduras, vitaminas e minerais. “O conteúdo desses nutrientes varia ao longo do dia, durante a mamada – no início da mamada, há predominância de água, carboidratos e proteínas e, no fim, maior concentração de gordura – e conforme a idade gestacional do recém-nascido”, esclarece.

A nutricionista explana que, de acordo com as recomendações do Ministério da Saúde e da Organização Mundial de Saúde (OMS), após o sexto mês, o leite materno continua sendo importante, mas deve ser complementado com alimentos. “Os benefícios são os mesmos, principalmente com relação aos anticorpos, células de defesa e fatores de crescimento”.

A alimentação das mulheres, durante a gestação e amamentação, deve ser baseada em alimentos in natura, como arroz, feijão, carnes legumes, verduras, frutas e laticínios, evitando alimentos ultraprocessados, como comidas industrializadas congeladas, por exemplo. “É muito importante o consumo de água no período de amamentação”, enfatiza. Além disso, não é recomendado consumir mais que três xícaras de café diárias, já que o excesso de cafeína pode causar agitação no bebê.

Além dos nutrientes, o leite materno contém anticorpos e células de defesa imunológica. Ana Elisa conta que ambos são importantes, pois o sistema imunológico do bebê ainda não está completamente desenvolvido. Por isso, o leite materno é uma proteção contra diversas doenças. “Há também alguns fatores de crescimento intestinal, cujas funções são reparo e estímulo do crescimento das células intestinais, como a melhora da digestão e absorção”, pontua.


E para as mulheres que não conseguem amamentar? Quais as alternativas para suprir os nutrientes? “Na impossibilidade de a mãe amamentar, existem diversas fórmulas infantis próprias para todas as faixas etárias”, afirma.

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