“És um senhor tão bonito quanto a cara do meu filho”

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05 junho 2017

“És um senhor tão bonito quanto a cara do meu filho”

Mães de diferentes tempos, aos 19 e 43 anos, relatam suas experiências


Por Letícia Brito

Uma “amando ser mãe depois dos 40” e outra “cada dia aprendendo uma coisa diferente”. Milca de Araújo é mãe de terceira viagem, aos 43 anos. Eduarda de Oliveira acaba de embarcar pela primeira vez ao dar à luz Ana Cecília, aos 19. Idade e maternidade: para além da rima, essas palavras carregam relações entre si. Como é, por exemplo, ser mãe antes dos 20 ou depois dos 40?

Milca é pernambucana, nasceu na cidade de Caruaru. Carrega na fala um sotaque típico e, nos braços, a Hadassa, sua terceira filha, que tem três meses de idade. Mudou-se para Minas Gerais para estudar no Instituto Bíblico e, então, conheceu seu marido. Eles pretendiam ter filhos no segundo ano de casamento, mas Milca foi diagnosticada com Síndrome do Ovário Policístico (SOP), aos 28 anos. De acordo com o Ministério da Saúde, esse é um “distúrbio hormonal que provoca formação de cistos no ovário”. Mulheres com SOP podem ter dificuldade para engravidar ou infertilidade. “O médico passou um tratamento para induzir ovulação porque, segundo ele, ovulo só uma vez por ano”, lembra Milca.

Ela conseguiu ser mãe cinco anos depois do diagnóstico, aos 33, quando nasceu José Pedro. Depois, retomou o tratamento e, após quatro anos, veio Eliabe. Ela conta que, depois da segunda gestação, não fez laqueadura, mas não achou que fosse ter outro filho e não continuou o tratamento. “Por conta da dificuldade que tive para engravidar, eu não me via agora fazendo essa cirurgia para não ter mais filhos. Depois de cinco anos sem tomar anticoncepcional, a surpresa: chega a Hadassa”, revela.


Milca foi mãe pela primeira vez aos 33. Dez anos depois, tem sua terceira filha, Hadassa. (Foto: Letícia Brito)

A história de Eduarda é um pouco diferente. Ela mora em Uberlândia e também planejou sua primeira filha, mas isso aconteceu mais cedo que no caso de Milca, aos 19 anos. Ela e o marido, Rodrigo, estavam juntos havia um ano quando decidiram que queriam um filho.  Chegou, então, Ana Cecília, que tem dois meses de vida. Apesar de ter planejado, Eduarda preferiu esperar para contar à família quando já estivesse grávida. “Minha mãe aceitou de boa e meu pai também”, relata.

Rodrigo já tinha outra filha quando começou um relacionamento com Eduarda. Quando os dois saíam juntos com a criança,  as pessoas perguntavam se a filha era do casal. “A gente dizia: ‘não, só dele; aí resolvemos ter [um filho] juntos”. Eduarda e Rodrigo já moraram juntos por um ano, mas tiveram um rompimento. Tempo depois, reataram e tomaram a decisão. “A gente tinha passado por um momento difícil, tínhamos acabado de voltar. A gente voltou e resolveu ter um filho”, conta.

“Tu vens chegando pra brincar no meu quintal”


Milca define suas três gravidezes como “parecidas, muito boas e tranquilas”. Em todas, sofreu descolamento da placenta, o que representa um risco. Isso exigiu um pouco mais de repouso, mas “houve todo cuidado médico por conta da minha idade e, graças a Deus, foi tudo muito bem”, conta.

Já Eduarda sofreu com enjoos durante a gravidez e acabou tendo anemia porque seu estômago não aceitava nem mesmo a vitamina receitada pelo médico. Além disso, foi diagnosticada, durante o pré-natal no posto de saúde, com toxoplasmose e iniciou o tratamento no Hospital de Clínicas da Universidade Federal de Uberlândia (HC-UFU).

Enquanto era tratada tomando remédios em casa, o posto de saúde ficou fechado por três meses por conta de uma greve dos funcionários, que reivindicavam pagamento de seus salários. Eduarda descobriu a gravidez já com quase dois meses de gestação e, nesse período, recebeu atendimento médico. No entanto, logo a greve teve início e ela só foi atendida novamente quando estava no quinto mês da gravidez. “O normal é ter mais de nove consultas [em toda a gestação] porque, no final da gravidez, tem uma por semana. Eu tive seis consultas”, lembra.

Quando as atividades do posto de saúde voltaram, Eduarda conseguiu ter acesso aos resultados de novos exames que tinha feito antes da greve. Eles mostraram que ela teve toxoplasmose quatro meses antes de engravidar, e não durante a gravidez. Eduarda afirma que a medicação não fez mal para o bebê, mas foi desnecessária. “Fiz o tratamento sem precisar. Tomei remédio e não precisava”, conta.

Dia a dia, lado a lado


Eduarda diz que o percurso de ser mãe reserva alguns sustos. “Cólica, por exemplo, dá um desespero na gente. Agora, já estou sabendo lidar com isso, mas o primeiro dia a gente assusta porque ela chora bastante e você não sabe o que faz”.  Eduarda lembra que ajudou a cuidar de duas irmãs mais novas e que isso proporcionou alguma experiência. No entanto, ela  diz que, hoje, sendo mãe, há coisas novas para aprender. “Banho, por exemplo, eu nunca tinha dado, minha mãe me ensinou. Tudo eu fui aprendendo aos poucos”.

Eduarda decidiu que queria ser mãe aos 18. Quando completou 19 anos, deu à luz Ana Cecília. (Foto: Letícia Brito)

Já Milca se diz mais segura sendo mãe depois dos 40 anos. “A gente tem mais maturidade nessa idade, um domínio maior. Não sei, talvez seja por causa da experiência, de já ser meu terceiro filho”, explica. Ela diz estar “achando o máximo ser mãe depois dos 40”.

Na época em que foi mãe de seu primeiro filho, José Pedro, Milca era educadora. “Quando ele fez um ano, eu e meu marido decidimos que eu ia parar de trabalhar fora e ficar em casa porque o sonho da gente era ter filho, construir uma família. Então, a gente optou por isso”. Surgiu, assim, a oportunidade de trabalhar em casa e fazer emborrachados para decoração de festas infantis. Mas essa rotina traz desafios.“Vejo muita dificuldade em conciliar trabalho e maternidade, ainda mais agora com a Hadassa pequena; a prioridade é ela, mas eu tento trabalhar nas horas que dá”, explica.

Já Eduarda estudava no Centro Estadual de Educação Continuada (Cesec) e trabalhava ao mesmo tempo. Quando engravidou, aos 18 anos, os estudos foram interrompidos, mas ela pretende continuar posteriormente. No mês de julho, volta a trabalhar. “Vou deixar a Ana Cecília em casa porque meu marido trabalha à noite e fica em casa durante o dia, então ele vai olhar”, planeja.

Palavras para o futuro


Eduarda quer ter mais um filho, mas no futuro. Por enquanto, pretende se prevenir. “Estou só esperando saírem os papéis no SUS pra eu colocar o DIU”, planeja. No momento, a prioridade é Ana Cecília. “A minha vida é só ela agora, vou cuidar dela porque está pequenininha; pretendo ter outro [filho] bem pra frente”, explica.

Milca não pensa em ser mãe de novo. “Se eu fosse mais nova, eu ia querer”, conta. Além do motivo psicológico que a impediu de fazer a cirurgia, por conta da dificuldade que teve de engravidar, ela aponta um motivo biológico. “Na minha família, as mulheres costumam começar a menopausa com 46 anos. Então, para que fazer essa cirurgia se, daqui a pouco, eu entraria na menopausa?”, argumenta.

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