Filhos: melhor (não) tê-los?

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05 junho 2017

Filhos: melhor (não) tê-los?

Distâncias e proximidades entre a vida materna e a escolha pela amaternidade


Por Josielle Ingrid
Quem escolhe de forma consciente dar à luz – biologicamente ou não – e viver a maternidade, geralmente, planeja boa parte dos momentos que essa vivência trará: desde a gravidez até o início da criação e educação das crianças. Muitas mulheres têm, seja qual for a idade, um fervoroso desejo de tornar-se mãe. Muitas. Não todas.

Segundo as estatísticas de 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 14% da população feminina no Brasil não pretende engravidar – quatro pontos percentuais a mais que no Censo anterior. São mais de 12 milhões* de mulheres. Se todas elas não sonham com a gravidez, o restante pode ser criança, estar indecisa, desejar a maternidade ou já ser mãe. Essas diferentes realidades não se excluem. Pelo contrário, coexistem. E, agora, vamos conhecer duas delas.

Ela quis


Marcella Moreira Lemos é casada, tem 30 anos, é enfermeira por formação, trabalha na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) de um hospital em Uberlândia e ama praticar exercícios físicos, especialmente musculação. Depois de seis anos de casamento, engravidou do Davi – hoje, com dois anos e seis meses. Marcella conta que concluiu a faculdade, queria se estabilizar no emprego e decidiu fazer uma pós-graduação. Com tanta atividade, não dava para engravidar. Na verdade, essa possibilidade nem sempre fez parte de seus planos.

“Tem mulheres que, desde cedo, têm muita vontade de ser mãe. E comigo não era bem assim, mas quando eu casei, depois de certo tempo, esse desejo despertou em mim. Foi muito bom porque tínhamos tudo planejado, nossa vida estava estruturada. Não me arrependo de nada”. Nessa nova relação entre mãe e filho, Marcella destaca a possibilidade de conhecer um novo amor. “Antes de ser mãe, você não conhece esse amor. É incondicional. Às vezes a criança faz birra e te irrita tanto! É estranho porque, ao mesmo tempo em que você tem muita raiva, aquilo passa em questão de minutos. É um amor muito grande mesmo, chega a doer o coração. O ruim é a sensação de perda, porque você não se imagina sem seu filho. Um dia, vai crescer, ter a vida dele; vem uma menina e rouba ele de mim (risos)”.

Ela não quer


Meiry Hellen Xavier é solteira, mora em Brasília, tem 34 anos, é formada em turismo e atua como coordenadora de recursos humanos em um escritório anexo à Embaixada alemã, na área de desenvolvimento sustentável. Teve uma época em que gostava de sair para dançar. Hoje, prefere um barzinho ou jantar com os amigos, sem descartar momentos particulares. “Adoro um tempo meu. Às vezes, passo um fim de semana sem ver a luz do dia assistindo a filmes e lendo livros”, confessa. Sua mais íntima paixão é viajar. Ela narra que sempre divide as férias em duas para aproveitar ao máximo.


Meiry em um dos muitos lugares que já visitou: Deserto do Atacama, Chile. (Foto: arquivo pessoal)

“Gosto de economizar dinheiro para fazer viagens grandes. Também adoro companhia, mas se não tiver, não é problema para mim. Faço amizades, conheço todo mundo, falo inglês e espanhol, então eu me viro. Sou bem independente. Essa liberdade, acho que ela acaba quando você tem uma criança”. Meiry ainda conta que é um xodó com os dois filhos de sua amiga de infância. Elas tentam se encontrar uma vez por mês para jantarem juntas. Num desses encontros: “eu no restaurante, esperando ela chegar, ela me liga: ‘meu filho caiu, cortou a boca, estamos indo embora para casa’. Foi frustrante para ela e para mim. Estava tudo bem, mas você tem que estar preparada para essas coisas. Eu tenho isso muito bloqueado; se acontecer alguma coisa com algum familiar [meu], não [vai ser] porque fui eu quem quis essa pessoa no mundo”, explica.


Nuances


O dia a dia de profissionais que precisam estar preparados para cuidar da saúde das pessoas, com a responsabilidade de fazer tudo para salvar uma vida, é dinâmico e denso. Marcella costuma fazer plantões escalados e conta que a maternidade mudou alguns aspectos de sua atuação. “Você passa a enxergar as coisas com outros olhos. Não consigo mais cuidar de criança doente. Ser mãe desperta uma coisa... ainda mais na área de saúde, com a minha profissão. Fiquei muito fragilizada e me sinto muito mal em ver uma criança doente. Uma de 3 anos morreu comigo”, revela.

A enfermeira, que naturalmente tem uma rotina estressante e com forte carga emocional, admite ser um pouco nervosa. Entre breves sorrisos, ela relata que a criança exige muito da mãe, principalmente. “Fiquei muito cansada. No início da maternidade, cheguei a pensar que eu estava com depressão. Todo mundo fala que ser mãe é lindo, mostram aquelas fotos de mulher amamentando, mas, no primeiro momento, não é assim. Ainda mais no meu caso, mãe de primeira viagem. Você não imagina que vai ser desse jeito. É uma carga, uma responsabilidade muito grande. [Hoje] sei que toda aquela dificuldade passa”.

Quase todos os amigos de Meiry são casados e têm filhos. Ela ri ao contar que já saiu com três casais e suas crianças. “Gente, são meus amigos! Eu não tenho problema com essas coisas. Quando é amigo de verdade você quer estar junto, independentemente de estar em outra fase. Todo mundo tem um amigo solteiro. Quero curtir os filhos dos meus amigos”, pontua. Alguns dizem que ela ainda não encontrou o príncipe encantado, por isso escolheu a amaternidade. Em suas palavras, “isso não existe e uma coisa não está conectada à outra. Já passaram três pessoas super bacanas na minha vida. As três foram embora pela mesma razão: queriam muito ter filhos; eu não. Foi um balde de água fria para eles. Pessoas que realmente valeriam a pena; se encaixavam em todas as minhas exigências (risos)”.

Não raro se ouve que “toda mulher tem um relógio biológico, tem um prazo”. Meiry acredita que isso pode variar. “A minha vida é tão movimentada, tão agitada, que eu não vejo esse tal relógio aparecer. Acredito que eu teria tédio só se, Deus me livre, eu sofresse um acidente e precisasse ficar de cama, mas nem assim eu pensaria na maternidade. Acho que as pessoas sentem ele bater quando ficam entediadas. Maternidade é uma coisa que não entra no meu mundo, mas para quem tem esse dom, quem realmente quer engravidar, acho fantástico!”, pondera.


Os outros


Entre namoro, noivado e casamento, Marcella e Hermom Ferreira Dourado estão juntos há pouco mais de 11 anos. Eles explicam que a decisão de ter o Davi foi um processo natural porque, em um certo momento, sentiram que era hora de algo novo na relação. E claro, a família sempre cobrava. “Já estávamos maduros o suficiente para sermos pais. Se tivesse acontecido no início do casamento, talvez não seríamos tão conscientes como somos hoje. É gostoso pra caramba, mas é uma tremenda responsabilidade”, observa o jornalista Hermom, de 35 anos de idade.


O casal, Marcella e Hermom, com Davi – enquanto o segundo bebê não vem. (Foto: Isabella Rodrigues)

Os primeiros meses da criança costumam ser os mais difíceis. Tudo é novidade e a única linguagem para expressar desconforto é o choro. Cabe aos pais decifrar a causa. Cólica? Fome? Manha? Esse período de adaptação não é tão simples. E, às vezes, comentários desnecessários podem piorar o quadro. “O Davi chorava demais, do nada. Ele teve bastante cólica. E as pessoas ficavam perguntando o que estava acontecendo. Aí eu amamentava – amamentei até os oito meses. E o que eu ouvia era ‘essa criança está passando fome’, como se o meu leite não sustentasse, não fosse o suficiente. Então, além da insegurança, tem pessoas que não ajudam, ficam dando palpite”, desabafa Marcella.

Palpites alheios também são comuns na vida de Meiry. Nem todo mundo encara como natural sua decisão por não ter filhos. A tensão pode aparecer em alguns dos relacionamentos mais próximos. “Minha mãe tem aquela ideia de que ‘toda mulher tem que ser mãe porque Deus deu esse dom pra gente’ ou ‘a mulher só é completa quando é mãe’. [Minha família] acha que a vida é: vai para casa, cuida dos filhos, tem esposa, volta para o trabalho. E tudo o que é diferente assusta, né? Quando você não segue as ‘regras’, é muito criticada. Às vezes uma amiga minha diz que eu não sei o que estou perdendo. Justamente! (risos) Você não sente falta do que nunca teve”, defende.


“Quem vai cuidar de você quando ficar velha?”, perguntam alguns. “Não é garantia nenhuma que seu filho vai cuidar de você; não existe garantia de que ele vai estar vivo até você envelhecer! Infelizmente, uma colega de trabalho perdeu o filho de 21 anos. É triste, não é regra, mas acontece. Quer dizer, as ideias que as pessoas têm sobre ter uma criança são ridículas”. “Você vai ficar sozinha, tem que ter uma companhia”, insistem outros. A esse tipo de comentário, Meiry responde que “também não é garantia! Tem gente que com 16 anos quer sair de casa e morar em outro lugar. Então assim, [nas] coisas que eles falam que eu vou sentir falta, não vejo nenhuma razão”, enfatiza.


Convergências


A maternidade pode significar uma experiência maravilhosa, mas nem tudo são flores. O casal, que ainda pretende ter outro bebê nos próximos dois anos, elenca como as principais desvantagens desse processo o lado financeiro – agora, roupas novas ficam de lado, o Davi é prioridade – e a restrição de liberdade. Contudo, Marcella e Hermom defendem que as vantagens superam largamente as desvantagens. “Arrependimento? Zero. Era para ser isso mesmo, veio na hora certa e a gente é mais feliz hoje que quando éramos só nós dois. Lógico que já éramos felizes, mas, hoje, é uma felicidade mais plena”, finaliza Hermom.

Meiry expõe que muita gente a considera infeliz, devido à sua escolha pela amaternidade, ou acredita que “ninguém quis engravidar essa pobre coitada”. Ela lamenta que haja tanto preconceito sobre essa escolha e defende que a felicidade é real “quando você se conhece e está bem com você mesma. É diferente estar só e ter a sensação de solidão. Para ser completa você tem que ser plena em saber o que quer, ser sincera consigo mesma e ter coragem para falar não. Tem gente lutando com si própria porque não consegue dizer não e não se respeita; faz o que não gosta mas está com um sorriso falso no rosto”.

Considerando a atual quantidade de mulheres no Brasil hoje, as histórias de Marcella e Meiry são apenas duas em meio a outras dezenas de milhões. Todas reais. Histórias diferentes que não se excluem, mas existem ao mesmo tempo; não representam obrigações, mas possibilidades. Essas experiências, completamente distintas, dão margem para imaginarmos a sociedade da qual queremos fazer parte. Mais que isso, qual sociedade queremos construir: aquela que julga e não permite a liberdade individual das pessoas ou uma que é capaz de respeitar estilos de vida divergentes.


* De acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) 2015, divulgada pelo IBGE em 2016. População brasileira total: 204,9 milhões; população feminina: 105,5 milhões.

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