Vergonha de quê, mãe?

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05 junho 2017

Vergonha de quê, mãe?

Por Letícia Brito


Ilustração: Rafael Gomes

"Velha demais para estar grávida de novo”. Era como minha mãe se sentia quando, aos 37 anos, engravidou de seu quarto filho. Todos foram, como ela conta, “escapulidos”: uma maneira bem mineira de dizer que as gravidezes não foram planejadas. Aos 27, ela era minha mãe e de mais dois: Marcelo e Andressa. Dez anos depois, viu-se começando do início, pela quarta vez, essa jornada. Miguel estava vindo ao mundo.

Minha mãe sentiu medo. Sei disso porque ela disse, mais com os olhos que com palavras. Aprendi que descolamento de placenta, aliado a pai e mãe com tipos sanguíneos diferentes, podem gerar muitas preocupações. Minha mãe também sentiu vergonha. Como assim? Bom, ela ouviu comentários sobre ter muitos filhos e viu os olhares surpresos quando anunciou a quarta gravidez. Se a insegurança teve início de dentro dela, essas reações, no mínimo, ajudaram a alimentar o sentimento.

Tenho a impressão de que há sempre pessoas palpitando, julgando e ditando regras


Acredito que está aí uma – talvez não a única – das explicações para minha mãe ter sentido "vergonha de sair na rua quando estivesse barriguda”. E não acredito que foi a única a se sentir assim. “Nova demais”, “velha demais”, “imatura demais”, "solteira demais", "com filhos demais". São muitos julgamentos prontos e poucas pessoas prontas a apoiar mães em suas diversas realidades.

Para falar tudo isso sem rastros de hipocrisia, porém, tenho obrigação de confessar: eu me peguei fazendo julgamentos, poucos dias atrás, enquanto estava envolvida na produção de uma das reportagens da Amaterna. Tenho vergonha disso, mas também sinto um baita alívio de pensar que ninguém nasce pronto. Então, sempre é tempo de parar com olhares e pensamentos tortos sobre uma mãe que, no seu julgamento, é nova demais, velha demais, isso ou aquilo demais, ou de menos. Seu julgamento não ajuda; ele, provavelmente, atrapalha.


Hoje, Miguel, o quarto filho, tem seis anos e acredito que aquele sentimento já não ocupa espaço nos pensamentos de minha mãe. Espero que eu esteja certa. Não sou mãe, pelo menos não ainda, mas venho entrevistando algumas, sou filha de uma que cria quatro filhos e, então, pude observar bastante e perceber que a trajetória não é fácil. Apoiemos mais, julguemos menos. Talvez, assim, menos mulheres sintam o que eu sei que minha mãe sentiu, seja por serem mães, seja por não poderem ou não quererem ser. Que mulheres não sintam vergonha de ser quem são, onde estão, nas circunstâncias e escolhas que as compõem.

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