O sonho é fértil

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06 julho 2017

O sonho é fértil

Mulheres que desejam ser mães enfrentam problemas de fertilidade com coragem munida de esperança

Por Letícia Brito
Começou na infância a tal vontade de ser mãe. Vanessa* é filha única, sem querer ser. Ela pedia irmãos e não conseguiu. “Fui crescendo e falei assim: ‘meu sonho é de ser mãe, quero ter meus filhos agora, parei de preocupar com irmão’”. Para Marlúcia* foi diferente, ela é a oitava filha. Brincadeira de criança virou sonho de mulher crescida. “Eu fui criada pra ser mãe. Desde criança, brincando com bonecas, brincando de casinha”. Vanessa e Marlúcia são amaternas sonhando em ser maternas. A maternidade é uma vontade que ainda não se concretizou. E não por falta de tentativas.

Os caminhos de Vanessa


Ela é uma mulher de 28 anos que tem paixão por pilotar moto e pelas sensações que isso provoca: prazer, liberdade e domínio. “Acho que gosto da adrenalina que o perigo dá”. Vanessa lida com crianças diariamente na creche onde trabalha. Há sete anos, sonha em ser mãe de uma criança que tenha gerado.

Quando completou dois anos de casada, parou de tomar anticoncepcional – o hormônio servia para regular seu ciclo menstrual. Um ano tentando engravidar naturalmente. Nada. Achou melhor procurar um médico. Foram muitos. De 2010 a 2017, passou por cinco ginecologistas na busca pela gravidez. “Quando parecia que eles desanimavam, eu procurava outro”. Vanessa foi diagnosticada, pelo primeiro médico, com Síndrome do Ovário Policístico (SOP).

No áudio abaixo, a ginecologista Laylla Aliontina Lemes de Oliveira explica o que é essa síndrome.



Esperava-se que a solução estivesse em comprimidos: os indutores de ovulação, que ela tomou por três ciclos seguidos. Sem resultado, procurou outro profissional que solicitou um exame chamado histerossalpingografia, para verificar se as trompas não estavam obstruídas. O procedimento foi doloroso. A sensação é de uma contração porque se aplica uma substância chamada contraste para dilatar o útero e possibilitar a observação na radiografia. “Eu fiquei lá, firme; fechei o olho, sentindo dor, suportando e pensando: ‘o dia que eu tiver meu filho, eu posso ter parto normal que eu vou aguentar’”. O exame não mostrou alterações. O médico indicou que ela tomasse os indutores de ovulação novamente. Não funcionou.

Do último ginecologista que Vanessa procurou, ouviu a mesma história: indutores de ovulação, mas, dessa vez, por meio de injeções na barriga. O médico, certa vez, brincou que elas faziam buracos. Buracos no bolso. Vanessa concordou. Cada uma custava R$ 224. Por ciclo, ela tomava, no mínimo, cinco. “A indústria farmacêutica judia com as mulheres que querem engravidar. São procedimentos e remédios muito caros”, queixa-se. Por isso, ela interrompeu o tratamento. A essa altura, nos exames de fertilidade de seu marido, não havia problemas. Atualmente, o casal não faz nenhum tratamento e tenta engravidar naturalmente.

As tentativas de Marlúcia


Aos seus 37 anos, ela gosta de fazer caminhadas na roça e, três vezes por semana, marca presença nas aulas de cross pilates. É diretora de uma escola municipal e tem o sonho de ser mãe.

A cólica menstrual forte costumava lhe fazer companhia. O anticoncepcional foi a solução, até ser deixado de lado pela vontade da maternidade. Cinco meses de tentativa, mas a gravidez não veio. Do primeiro tratamento que tentou para engravidar, Marlúcia esqueceu o nome, mas se lembra de que “passava muito mal: enjoava de manhã, ou à tarde ou de madrugada”.

Por conta disso, parou com o tratamento. Foi quando começou a sentir dores nas pernas e, por meio de exames, descobriu que eram sintomas de um câncer na tireoide. Encaminhada para o Hospital de Câncer de Barretos, Marlúcia retirou o nódulo e se tratou. As tentativas de ser mãe tiveram que esperar por um tempo. Mais precisamente, por cinco anos.

Nesse período, Marlúcia não fez tratamento para engravidar, mas também não evitou. “Sou católica e eles não permitem tomar anticoncepcional porque o casamento é para multiplicar. Só tomei antes para parar com minhas dores, minhas cólicas”. Ela não tem um diagnóstico. Seu marido também foi examinado e não há nenhum problema de fertilidade. “Fiz todos os exames possíveis e impossíveis para ser mãe. Não deu nada, meu útero está limpo, estou ovulando e o médico não soube explicar o motivo de eu não ficar grávida”, explica. De acordo com a ginecologista, aproximadamente 5% das causas de infertilidade são indefinidas. “Os médicos não conseguem dar uma certeza: está tudo bem com a mulher e com o parceiro dela, mas ela não consegue engravidar. São poucos casos, mas eles existem”, esclarece. 

A religião, por outro lado, ofereceu uma resposta. Marlúcia fez acompanhamento com um padre. “Ele falou que o meu bloqueio de gravidez é devido à minha gestação ter sido turbulenta. Eu sou a oitava filha, minha mãe já tinha sofrido muito, já estava com 40 anos, era uma pessoa cansada que vivia na roça”, relata. Diante disso, Marlúcia buscou solução. “Fiz uma terapia para voltar na concepção, no útero da minha mãe, e perdoar tudo o que aconteceu durante minha gestação, para eu tirar esse bloqueio da minha cabeça”, relata.


Sentimentos


Vanessa e Marlúcia têm em comum a busca pela maternidade e os sentimentos de que a sociedade, muitas vezes, pressiona. “Eu te digo que uma coisa, assim, que eu sofri e sofro muito é com a sociedade. Porque você casa e eles te cobram muito um filho”, afirma Vanessa. Essa situação piora quando a sociedade e a família tomam conhecimento de que existe um problema de fertilidade. “Parece que as pessoas passam a tratar a gente diferente. De certa forma, por certas pessoas, eu me senti, assim, desprezada mesmo: ‘ah ela não pode dar o que eu quero, então vou largar pra lá’”, relata.

Marlúcia conta que “a cobrança da comunidade é muita porque esse ano já vai fazer 12 anos de casamento e, de certa forma, eu corro contra o tempo porque esse ano faço 38 e, a cada ano que passa, eu sei que, mediante a medicina, minhas chances são menores”.

A esperança é um sentimento marcante da trajetória de mulheres que enfrentam problemas de fertilidade e sonham em engravidar (Foto: Letícia Brito)

A trajetória de expectativas, tentativas e frustrações é difícil. “Às vezes, me pego chorando por ter vontade e não ser; é quando eu falo ‘seja feita a vontade de Deus e não a minha’”, comenta Marlúcia. Vanessa já sentiu vontade de desistir. “Quantas vezes eu rezei e pedi ‘tira esse desejo meu, se ele não pode se realizar’. Às vezes, a gente quer parar de sofrer por tentar e ter as frustrações, mas como é que tira um sonho do coração da gente?”, questiona.


A infertilidade é do casal, não da mulher


Flavia Nusdeu vive em São Paulo e passou cerca de cinco anos tentando engravidar. Hoje, aos 43, tem dois filhos. Ela atua como coach para mulheres tentantes (que tentam engravidar). Segundo Flavia, o casal que tem problemas de fertilidade enfrenta um excesso de emoções. “Desde esperança, alegria, motivação à frustração, raiva, decepção, vergonha, sentimento de incapacidade, tristeza, depressão, desesperança, euforia, inveja...”. O apoio emocional “com ajuda para eliminar hábitos que prejudicam a fertilidade e adotar hábitos capazes de melhorar sua capacidade de conceber”, segundo a coach, é essencial.

A ginecologista destaca que a infertilidade não deve ser vista como só da mulher, é do casal. “É importante os casais investigarem juntos. Normalmente os homens têm certo tabu de ir ao médico, ser infértil ou de ter que fazer um espermograma. Eles têm que ter um pouco mais de sensibilidade com a mulher”, defende.

A adoção é cogitada?


Marlúcia já conversou com o marido sobre a possibilidade de adotar, mas chegaram à conclusão de que não pretendem partir para esse caminho. “É algo complicado porque traz cargas genéticas fortes. A maioria dos casos de adoção que a gente vê são complicados porque a criança, por mais que a gente passe amor e carinho, pode se sentir rejeitada e eu acho que não é muito viável”, acredita.

Vanessa cogita a possibilidade, mas tem receio. “Eu sei que a gente [Vanessa e o marido] vai amar muito, vai querer cuidar, vai tratar bem. Mas e as outras pessoas? Porque se eu visse tratando meu filho diferente, eu ia achar ruim”, desabafa. Ela relata que, ao comentar sobre adoção, já ouviu comentários como “Para quê isso? Não precisa, tá cedo, você está nova ainda”.

Apesar disso, Vanessa pensa em adotar. “A adoção eu acho que é mais do que um parto porque, quando você gera uma criança no seu ventre, já vem amando, pensa que é um pedaço seu, é mais fácil. Agora, você abrir seu coração, sua casa e sua vida pra dar a uma criança que não conhece, não tem vínculo, mas que você vai por ela na sua casa para amar e cuidar o resto da sua vida, eu acho que é um amor maior ainda. A adoção é uma possibilidade sim”, confirma.

A esperança é paciente


Perder a conta de quantos testes de gravidez já fez. Reanimar a si e à sua fé. Investir dinheiro e passar por dores – físicas e emocionais. Requer força ser uma mulher que – entre tantas outras características – é tentante (quer ser mãe).

“A esperança é quem me abriga”, diz um trecho da música cantada por Djavan – de quem Marlúcia é fã. “Minha motivação é o desejo realmente de ser mãe. A fé me ajuda muito porque me consola, eu me apego a ela pra passar esses momentos que são difíceis”, diz Marlúcia.

Generosa que é, a esperança também abriga Vanessa. “Eu estou nessa situação, não quer dizer que vou ficar nela pra sempre porque eu acredito que vai dar certo. O que eu puder fazer e estiver no meu alcance eu vou correr atrás”, afirma.


*A pedido das fontes, são utilizados apenas os nomes iniciais.

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