Amor além do DNA

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06 julho 2017

Amor além do DNA


Em vez de muros, casais constroem pontes na constituição de uma família


Por Josielle Ingrid

Filhos. Biológicos ou adotados. Todos se formaram em algum útero. Contudo, nem todas as progenitoras criam laços afetivos com as crianças que geram, pelos motivos mais diversos. Em vez do fator genético, há algo mais profundo. Uma raiz. O mais íntimo e visceral espaço de gestação. O verdadeiro lugar em que todo filho é concebido: o coração. Nele, vínculos de amor, respeito, segurança e comprometimento são construídos para o resto da vida.

Dois pais

Gilberto Scofield e Rodrigo Mello se conheceram há 14 anos, em uma festa carioca. Em seis meses, o jornalista e o corretor de imóveis estavam morando juntos. Sintonia imediata. Pouco depois, mudaram-se para a China, a trabalho. Ficaram impressionados com a história das crianças do país. Por causa da política do filho único e pela tradição de os homens sustentarem os pais na velhice, muitas meninas foram mortas, traficadas ou encaminhadas para adoção internacional. Foi da percepção dessa realidade que nasceu em Gilberto e Rodrigo a vontade de adotar.
Eles retornaram ao Brasil em 2010 e, em São Paulo, iniciaram o processo. Quiseram transferir o pleito para o Rio, o que tornou o percurso um pouco mais demorado. Enquanto esperavam, participaram de grupos de apoio nos quais realizaram cursos de capacitação, etapa obrigatória para se habilitar à adoção. Em novembro de 2014, Gilberto recebeu um comunicado dizendo que havia uma criança no interior de Minas Gerais, com quatro anos de idade. “Aí, conhecemos o Paulo. Já trouxemos ele com a gente. Chegou uma semana antes do aniversário de cinco anos, que é dia 3 de novembro. O meu é dia 4. Perdi meus aniversários para o resto da vida”, brinca.
Da esquerda para a direita, o jornalista Gilberto Scofield, o pequeno Paulo e o corretor de imóveis Rodrigo Mello (Foto: Arquivo pessoal)

Hoje, o jornalista acredita que a demora do processo foi positiva. “A gente teve muito tempo para amadurecer essa ideia. É importante que você se prepare para ser pai. Ter filho muda muito a vida de uma pessoa”. Para ele, educar bem uma criança ultrapassa a questão escolar. “Que ele compreenda o espaço dele e o dos outros, que ele seja uma pessoa ativa na sociedade, uma pessoa do bem, que ele tente se colocar no lugar do outro. Isso dá trabalho! Eu posso pegar um iPad e colocar na mão dele. Pronto. Eu tenho quatro horas para cuidar de mim e ele fica ali, mas é essa a criação que você quer dar para o seu filho?”. Ao mesmo tempo, “você não tem controle cem por centro sobre a vida da criança e é uma ingenuidade achar que isso vai acontecer”, avalia.
Umas das reclamações mais comuns sobre o pleito é a burocracia. Gilberto, no entanto, define o processo como cuidadoso. “E ele precisa ser assim. Porque a justiça não trabalha para os pais, trabalha para as crianças. Qual a melhor família para aquela criança? É uma tarefa muito complicada entender se o casal está preparado para adotar, se a pessoa tem condições emocionais e psicológicas para isso. Não dá para ser um processo de três semanas. Você está entregando um ser humano na mão de alguém, não é uma coisa”, defende.

Segregação e falsas expectativas

Os pais foram surpreendidos. Acreditavam que poderiam sofrer preconceito por serem dois pais. O que não aconteceu. Em contrapartida, a adoção inter-racial trouxe à tona atitudes discriminatórias. “O Rodrigo e o Paulo foram a uma feira. Na volta, o Paulo saiu correndo na frente. Quando ele foi entrar, uma mulher – que não morava no prédio – disse que ele não poderia entrar porque ele não morava ali. Se ela não mora no prédio, como pode saber quem mora ou não nele? Será que se fosse uma criança branca ela teria dito isso?”, questiona Gilberto. “Eu ouvi, de uma criança, ‘esse clube está ficando estranho porque agora tem até negro’. Uma criança de oito ou dez anos não sabe muito bem o que fala. Provavelmente, está reproduzindo o que ouviu em casa. [O preconceito] algumas vezes é sutil. Outras, escancarado. A gente vive num país racista”, analisa.
Paulo já havia passado por um processo de adoção. Não deu certo. “A mulher que o adotou foi denunciada pelo irmão. O conselho tutelar foi lá e constatou que ele tinha sinais de maus tratos. Daí, voltou ao abrigo. Foram [alguns] casais visitá-lo e não quiseram. Dois deles acharam que o menino era negro demais”, relata o jornalista.
Gilberto reflete sobre a idealização que muitas pessoas criam sobre uma criança. “Qual é a ideia de filho que se tem? A gente esbarra nesse tipo de reação: ‘não vou adotar aquela criança porque é muito baixa; aquela é muito agitada; aquela é muito negra’. A criança começa a se desenvolver e não é exatamente estudiosa, tem déficit de atenção. Isso vai saindo do seu controle. E você precisa estar certo de que é seu filho! Não dá para devolver na fábrica: ‘oh, moço. Tenta consertar aí. Se não der certo, quero outro’. A paternidade e a maternidade são exercícios diários: todo dia é um novo dia. E não é porque ontem foi assim que amanhã vai ser a mesma coisa”, observa.

Mais completa

Em junho de 2017, oficialmente, a família cresceu. Gilberto e Rodrigo conseguiram a guarda definitiva de Rafaela, irmã biológica de Paulo. Eles viviam juntos em um abrigo, no Vale do Jequitinhonha, em Capelinha, pequena cidade no norte de Minas Gerais. “Ela já tem 17 anos, o Paulo tem sete. A chegada dela foi ótima, é a primeira mulher da casa! Até então, eram eu, o Rodrigo, o Paulo, três gatos machos e um cachorro macho. Foi muito legal. Está sendo bem interessante ser pai de adolescente, é outra pegada”, conta o jornalista.
Na sala de casa, a família inteira se reúne: Rodrigo, Paulo, Rafaela, Gilberto, os três gatos e o cachorro (Foto: Arquivo pessoal)

Gilberto, por fim, apresenta sua visão de família. “Conheço toneladas de famílias biológicas que não se suportam. Ninguém fala com ninguém, brigam por dinheiro. São, em tese, da mesma família, mas não agem como uma. Não existe afinidade emocional nem amparo. Família, para mim, é: todas as pessoas que se protegem por laços de afinidade, de carinho e de amor. Isso não passa por questões sanguíneas. Passa por questões afetivas”.


Duas mães

Andrea Alves trabalha com telemarketing e Luciene Simão é dona de casa. Elas se conheceram em 2007, por meio de amigos em comum. Durante três anos, ficaram entre idas e vindas. Até que, depois de uma pizza, nunca mais se separaram. O casal tinha em comum, além de outras coisas, a vontade de adotar. Luciene sempre teve contato com essa realidade. “Na minha família isso é [comum]. Minha irmã mais velha é adotada, meu irmão tem um filho também. Para mim, a maternidade pela adoção ou pela geração é a mesma coisa”, declara. Em 2005, sozinha, ela abriu um processo. Barrado. “O pessoal do fórum achou que eu queria adotar porque morava com pais idosos. Eles podiam morrer e eu ia ficar sozinha, que eu queria uma criança para ser companhia. E não era isso”, conta. Quando o processo foi encaminhado para revisão, Luciene precisou cuidar da mãe que sofreu um acidente vascular cerebral. Naquele momento, desistir foi a melhor alternativa.
Andrea já tinha visitado abrigos. Devido à endometriose, descoberta aos 14 anos, tempos depois precisou tirar os ovários e o útero. A possibilidade de engravidar nunca foi considerada. Quando decidiu adotar, juntamente com Luciene, foi firme. “Não quero nada errado, pegar de alguém e depois a pessoa vir bater na minha porta falando ‘esse filho é meu’. Quero deitar minha cabeça no travesseiro e dizer ‘essa filha é minha’, porque foi de acordo com as leis”. E assim fizeram. Sempre respaldadas juridicamente.

O percurso

Era março de 2013 quando abriram o primeiro processo com o nome das duas. Andrea considera que essa fase inicial foi mais fácil porque a maioria dos documentos elas pegaram pela internet. Em agosto, receberam uma ligação para iniciar as entrevistas. Perto do Natal, quando foram avisadas que existia uma criança dentro do perfil, ainda não tinham feito o curso de capacitação. Devido ao período de fim de ano, o máximo que podiam fazer era conhecer o histórico da Yanne, até que o Fórum voltasse à ativa.
“O mais demorado foi o processo de aproximação”, introduz Luciene, que costuma ficar em casa com as crianças. “Não sei se era por ser o primeiro casal homoafetivo em Uberlândia. A gente começou indo duas vezes por semana no abrigo. Em pouco tempo, liberaram para todos os dias. A gente ia para o abrigo 7 horas da manhã e ficava até meio-dia. Todos os dias”. Normalmente, são de quatro a oito visitas até que a criança seja entregue à nova família. Andrea e Luciene acreditam que essa particularidade pode ter raiz na devolução que Yanne sofreu. “Ela foi adotada com um ano e nove meses e devolvida com dois aninhos. Ela chorou por 12 dias, chamando ‘mamãe’. Depois de três meses, fomos nós”, relata o casal.

Duas mães, duas filhas: a família completa (Foto: Marcela Pissolato)

Antes de Luciene e Andrea, 15 casais conheceram a menina. Em avaliação médica, encontraram uma anormalidade no cromossomo 17, causador de bronquite, rinite e outros tipos de inflamação. Quando tomavam conhecimento dessa informação, os casais não queriam adotar a criança. “Durante todo o processo de adoção, eles perguntavam isso pra gente ‘vocês têm certeza disso?’. Eu quase tive que fazer uma camiseta com ‘sim’”, ironiza Andrea. “Chegou ao ponto de a responsável pelo abrigo ir no Fórum e perguntar porque eles não entregavam [a Yanne], de tanto a gente ir lá”, reitera Luciene.


Lar, doce lar

O quartinho, preparado com tanto carinho, estava pronto. O feriado de carnaval se aproximava. Pela manhã, Luciene procurou a psicóloga. “O abrigo fecha e levam as crianças para casa dos cuidadores. Não quero que a minha filha vá para casa de outra pessoa. Se tiver que ir para casa de alguém, tem que ser para a minha”. Orientada a esperar uma ligação, aguardou. Andrea trabalha no shopping e, naquele dia, Luciene a levou. “Estacionei o carro e fiquei ali. Não ia sair até que me ligassem”. Finalmente, perto das 17 horas, o celular tocou. Precisavam pegar o termo de guarda no Fórum, que – assim como o abrigo – fechava às 17h30. Sem isso, não poderiam levar a filha para casa.
“Foi aquela correria. Ligamos para o abrigo, pedindo que eles esperassem. A gente tinha que ir assinar os papéis antes. E, como fomos o primeiro casal, todo mundo no Fórum queria ver. O acontecimento do ano era esse”, riem as mães. Correram para o abrigo. “Chegamos lá 18 horas. Ela estava num desespero... estava esperando já”. Antes de irem embora, registraram aquele momento em uma fotografia. “Ela sabe que é adotada. A gente quer que ela tenha suas raízes. Tinha pessoas no abrigo que ela gostava muito. Antes que algumas crianças fossem adotadas, voltamos lá para ela visitar”, conta Luciene.

A volta para casa foi emocionante. Yanne tinha um lar. “Na hora em que ela entrou no carro e viu que ninguém entrou atrás com ela... era pequenininha, mas sentiu o que estava acontecendo. Você precisava ver a alegria! Uma criança de dois aninhos cantava porque estava indo embora com a gente”, recorda Andrea.
Luciene se diverte ao lembrar que, no primeiro dia, a filha não quis papo. “Tive que pegar Galinha Pintadinha e Patati Patatá e decorar as músicas. Fui chegando aos poucos. A psicóloga do Fórum percebeu minha dificuldade e me deu algumas dicas. Aí, ela foi se abrindo para mim. Mesmo quando a gente veio para casa, demorou um pouco para me chamar de mãe”.

Rótulos e caixinhas

As mães nunca sentiram a necessidade de ter uma conversa para explicar a dinâmica da família para as filhas. Porque é natural. “Tem um livrinho que conta a história de duas mamães elefantas. Elas adoram. Realmente existe isso, o elefante se afasta e duas amigas cuidam do elefantinho. Contei para Yanne primeiro e depois para Yasmin”, a segunda adoção. Luciene ainda lembra de uma cena engraçada. “Levamos [Yanne] para tomar vacina. Uma pessoa começou a puxar conversa e ela dizia ‘Eu quero ter três mães! Só tenho duas’”. Andrea complementa dizendo que “a Yanne era muito pequena [quando pegamos ela]. Cresceu assim, não estranha isso. Com a Yasmin, como já era maiorzinha, foi um pouquinho mais difícil. Logo de início, já teve aquele impacto. As crianças maiores já têm os preconceitos, incutiam na cabeça das menores. ‘Você é isso, você é aquilo’. Já usavam aquelas palavras que colocam rótulos”.
Adotar Yasmin foi mais rápido. Na terceira visita, já puderam passear com a criança. No final de semana seguinte, estavam em casa. Em menos de 40 dias, a própria equipe do abrigo entrou em contato com o Fórum e pediu ao juiz que liberasse o termo de guarda. “Porque a gente via que, quando ela voltava para lá, os meninos enchiam a cabeça dela”, explica Andrea.
“As pessoas não têm uma noção real do que é a adoção. Por exemplo: ‘quero criança de até seis meses’. Se a criança tiver seis meses e um dia, você está fora”, explica Luciene. Os pretendentes não escolhem diretamente. “Você vai lá quando te chamam para uma criança determinada. Pode ter 500. Você foi para uma”, completa. Quando questionada se pretendia adotar uma terceira criança, Andrea não titubeou: “Não, só se eu ganhar na loteria”. Entre gargalhadas, Luciene confessa que já foram chamadas duas vezes. “Não adianta só pegar a criança, tem que ter condição de cuidar”. Hoje, o casal é tido como referência no assunto. “A gente sempre fala que a adoção é a melhor coisa que tem. Se você tem vontade, faça primeiro a parte burocrática para deixar tudo certinho – não vá pelas vias erradas porque é só dor de cabeça, não vale a pena”, recomenda.
No sofá de casa, as meninas posam para foto (Foto: Josielle Ingrid)

A Amaterna ouviu também especialistas sobre o assunto. Entenda mais sobre o processo e os números da adoção do Brasil em "A conta não fecha".

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