As experiências de quem cria filhos sozinho

Main Posts Background Image

Main Posts Background Image

06 julho 2017

As experiências de quem cria filhos sozinho

Mãe e pai solo contam suas histórias e realidades


Por Marcela Pissolato
Dar comida, remédio, ensinar a falar, ajudar em tarefas… Criar um filho não pode ser considerada uma tarefa fácil. Na realidade de mães e pais solo, um novo termo para substituir o antigo “solteiro” já que a maternidade e paternidade não são um estado civil, isso pode se tornar ainda mais complicado. Esse tipo de família monoparental representa 30% em relação ao total de arranjos familiares com filhos, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Daniela* é pedagoga, tem 42 anos e uma filha de 18. Randhal é tradutor, 33 anos e vive com seu filho. Ambos são de Uberlândia e vivenciam essa situação, mas as semelhanças entre as duas histórias terminam por aí.  

Foi melhor assim


Quando tinha 23 anos, Daniela teve seu primeiro namorado e ficou grávida. A relação, entretanto, terminou quando ela já estava com seis meses. “Ele aceitou a gravidez, mas não aceitou o relacionamento”, conta. Ela, que sonhava em se casar, se viu frustrada com a situação e com o fato de ter de parar os estudos, aos quais só retornou em 2010. O pai de sua filha ajudava com algumas despesas e a apoiou, principalmente durante a gravidez. Daniela ainda tentou reatar o relacionamento durante dez anos. Hoje, ela “dá graças a Deus” que isso não tenha acontecido. “Eu vejo que não era pra mim esse relacionamento, porque ele é um homem muito agressivo”, revela.

A pedagoga conta que a fase mais difícil com sua filha foi na adolescência. “Quando tinha uns 14 anos, ela quis experimentar outras coisas, conheceu um rapaz que quis apresentar as drogas pra ela. [...] Quando eu chamei ele [o pai da filha] pra tentar me ajudar com isso, bateu no rosto e cortou a boca dela por dentro, porque ela tava fumando”, relembra com pesar. Ela explica que foi uma situação traumática para a menina, que depois contou para a mãe o que já havia passado na infância.

“Minha filha falou as coisas que ele fazia com ela e com o irmão [de outro relacionamento]. Ele pegava os meninos e levava pra casa dele e torturava, obrigava a comer fruta estragada, ela com seis e o menino com cinco anos, obrigava eles a limpar a casa e, quando chegasse, queria os dois sorrindo. Quando ia acordar as crianças de manhã, ao invés de fazer como uma pessoa comum, ele pegava o pé deles e torcia. Então esse homem judiou muito, principalmente do psicológico dos meninos. Eu fiquei sabendo muito tempo depois”, desabafa Daniela. Apesar de tudo, ela nunca entrou com ação na Justiça. Em vez disso, pediu para que a filha não fosse mais atrás de pensão “porque isso iria afrontar ele”.

Escolhendo ser pai solo


Criar um filho sozinho, ao contrário da história de Daniela, foi uma escolha para Randhal. Ele, que sempre gostou de crianças, resolveu adotar uma. Em 2015, chegou o Matheus, que já tinha dez anos. “Tive vários pensamentos ao longo da vida de que um dia iria ter um filho, mas sempre foi uma ideia meio abstrata, porque ficava focado em outras coisas. Quando eu vi que ia me formar, comecei a pensar nessa outra parte”, explica.

Segundo ele, durante o processo de adoção, há várias entrevistas com psicólogos e assistentes sociais. O caso dele era quase que uma novidade, já que, normalmente, são mulheres que adotam sozinhas. “Aí eles perguntam se eu precisar faltar do trabalho, caso a criança fique doente, e eu falei que tem tanta mãe que acontece isso, não é nada de novo, só é um pai sozinho. Se acontecer, é da mesma forma que as mulheres, pegar atestado, contar com amigos”, afirma Randhal.

Randhal sempre quis ter um filho. Depois que se formou, começou a pensar na ideia de forma mais concreta (Foto: Marcela Pissolato)

No começo, o tradutor conta que ninguém ajudava muito. “Foi eu, Deus e ele”, revela. Além da licença-paternidade de 20 dias, ele conseguiu pegar um tempo de férias que ajudou para a adaptação do menino, que já tinha alguns costumes próprios. “Depois, a dificuldade é fazer comida sempre na hora, não chegar atrasado na escola, lavar os uniformes sempre. Se eu to sozinho, posso comer na rua. Com a criança não, ele tem que se alimentar direito. Não é um sacrifício, a gente faz com prazer, tive que adaptar e entrar no eixo”, conta.

Dia a dia


“Toda minha vida foi em função de suprir as necessidades da minha filha, desde as mais básicas até tentar dar um conforto”. É assim que Daniela resume sua vida depois que se tornou mãe. “Eu tinha que dar conta de tudo. De comida, de remédio, água, luz, feira… só que eu não conseguia. Eu trabalhava ao mesmo tempo, fazia bicos de faxina por fora e pagava escolinha pra ela”, explica. Por conta da rotina cansativa, ela era uma pessoa estressada. “Ela sofreu muito na infância, porque ela tinha um pai daquele jeito e eu era agressiva com ela também”, lamenta.

A vida de Randhal mudou depois da chegada de Matheus. “De manhã, ele vai para o futebol ou natação, aí almoçamos, levo ele para a escola e vou pro serviço. Pego ele na escola e vamos embora. Meu horário até mudou pra encaixar com a aula dele”, detalha. Além disso, ele precisou mudar de casa porque morava em um apartamento pequeno. O tradutor diz que se preparou para as coisas que iriam acontecer dali pra frente, mas, no dia a dia “sempre tem algumas questões que pegam a gente de surpresa”, afirma. “Agora, estou tirando minha pós-graduação em pai e filho (risos), é uma especialização e tanto”, brinca.

O povo comenta


Apesar de já ser um tipo de família comum, ainda existem alguns preconceitos sobre a criação de filhos sem cônjuge. Daniela diz que percebeu esses julgamentos até na igreja que frequentava. “Eu sentia que quem é mãe solteira não tinha tanta ajuda espiritual e emocional, mas eu não me diminuía pra ninguém, se eu tivesse que falar alguma coisa tanto pra homem quanto pra mulher, eu tinha que me impor e isso eu consegui”, afirma.

Para Randhal, muitas pessoas “torciam a cara” quando ele dizia que iria adotar, principalmente quando contava a idade da criança. “As pessoas ficavam falando ‘nossa, vai adotar um menino grande, vai dar muito problema e não sei o que’. Eu procurei me afastar desse tipo de gente, eu queria pessoas positivas porque era um sonho meu”. Além disso, muitos contavam histórias sobre outras pessoas que não deram certo. “Por ser sozinho, acho que intensifica um pouco isso de acharem que não vai dar conta. Teve muitos comentários assim, mas a gente seleciona o que quer ouvir também”, declara.

*O nome da entrevistada foi alterado para preservar sua identidade.
  

Dados

Os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2015 mostram que, considerando apenas as famílias com filhos, o percentual de mães solo é bem maior que os de pais solo. No Distrito Federal, o índice de mães que criam os filhos sozinhas está acima da média nacional. Esses dados consideram apenas as famílias com filhos (casais com filhos ou pais e mães solo).





Nenhum comentário

Postar um comentário

Desculpe, algo deu errado