Não se nasce mãe, torna-se

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06 julho 2017

Não se nasce mãe, torna-se

Por Josielle Ingrid


Ilustração: Rafael Gomes

Quem nunca se sentiu pressionado a nada? Em qualquer fase da vida, as pessoas têm expectativas sobre nós e esperam que cumpramos papéis prontos. Das coisas mais simples às mais complexas. Se é menina, gosta de rosa e brinca com boneca. Se é menino, gosta de azul e brinca com carrinho. Se começou a graduação, tem que se formar (de preferência, com as melhores notas). Terminou a faculdade, é bom pensar numa pós. Se está trabalhando, procure ser promovido e ganhar mais dinheiro que agora. Se está solteiro, tem que namorar. Se namora, tem que casar. Se casou, quando terão um filho? Se teve o primeiro, quando vem o segundo?

Vivemos em sociedade, convivemos com pessoas que nos amam e se importam conosco – embora também tenha muita gente que só quer dar palpite na vida alheia. É natural que nos questionem sobre vários aspectos do agora e do futuro. E como é bom saber que temos com quem contar; aconteça o que acontecer, alguém estará ao nosso lado quando precisarmos. Essa certeza anima, conforta e fortalece. No entanto, para além disso, a questão que fica é: da vida que eu vivo, que parcela é apenas o cumprimento de expectativas sociais a respeito do que eu deveria ser? Que parte é, de fato, minha decisão por livre e espontânea vontade com base nos meus próprios ideais?

Provavelmente você já deve ter lido ou ouvido a frase “a existência precede a essência”. Ela propõe a ideia de que primeiro existimos e depois nos tornamos. Num resumo simplista, podemos dizer que não haveria uma identidade pré-determinada, um caminho traçado. O sujeito nasce livre e constrói sua essência, à sua maneira, num constante inventar-se. Tal pensamento provém do filósofo parisiense Jean-Paul Charles Aymard Sartre, que viveu durante o século XX e foi um dos principais representantes do existencialismo. Ele reprovava o conceito de que somos o que fazem de nós; antes, afirmava que somos aquilo que fazemos com o que fazem de nós.

As histórias de Marcella Moreira Lemos e Meiry Hellen Xavier, abordadas na seção Contrastes da primeira edição da Amaterna, são genuínas e opostas. Duas num universo de mais de 100 milhões possíveis, considerando a população feminina hoje no Brasil. Essas narrativas contribuem à compreensão de que a maternidade não é certa, não é errada, não é uma obrigação, muito menos uma decisão a ser tomada por terceiros. A maternidade é uma possibilidade. E depende da vontade livre da mulher. Não se nasce mãe, torna-se. Nenhuma mulher é, em essência, mãe. Isso significa que maternidade e amaternidade não transformam alguém em mais ou menos mulher. Marcella e Meiry deram significados distintos às suas existências; nem melhores, nem piores. Apenas diferentes. E é justamente porque foram livres para dar às suas vidas o sentido que preferiram, que se tornaram mais plenas frente ao desafio, sempre presente, do constante inventar-se.

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