Não tenho ideia do que é a depressão pós-parto

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06 julho 2017

Não tenho ideia do que é a depressão pós-parto

Por Isabella Rodrigues
Ilustração: Rafael Gomes

Correndo o risco de parecer clichê, começo essa observação dizendo que apenas as mães sabem a dor e a delícia da maternidade. Digo isso porque, mesmo após ter escutado os relatos de mulheres que tiveram uma depressão pós-parto, ter entrevistado profissionais da saúde e ter lido sobre o assunto em diferentes lugares, eu não faço a mínima ideia da carga emocional de quem passa por isso. Não faço ideia porque não sou mãe. E existem mulheres que são mães e mesmo assim não fazem ideia porque de fato não passaram por isso. Entretanto, há algo em comum  que é despertado em mim e pode (ou deveria) ser despertado principalmente nas outras mulheres: a empatia, poucas vezes lembrada e raramente praticada.

Escrevendo a reportagem, pensei em como os julgamentos e a pressão social podem piorar o quadro depressivo de várias mulheres. Quantas poderiam procurar ajuda mais cedo se entendessem que elas não são pessoas horríveis por não estarem contentes com o nascimento de um filho. Que sentir medo, culpa ou tristeza logo após ver a sua criança pela primeira vez pode sim acontecer, e ela não será uma péssima mãe por isso. Muitas rejeitam que estejam depressivas em razão da gravidez ou da chegada do bebê justamente por temor da reação alheia. E talvez elas fiquem receosas com motivo, afinal, um dos maiores sensos comuns existentes é julgar mães por qualquer tipo de atitude, ação ou sentimento que elas tenham. 


Mencionar que não estão felizes com a chegada de um bebê, então... Bombardeio!


Outro ponto que merece destaque é o preparo dos profissionais da saúde para lidar com a saúde mental da parturiente. Segundo o ginecologista e psiquiatra que entrevistei, a rede pública ainda não está totalmente preparada para atender os casos de depressão pós-parto nas consultas de rotina da mulher e do bebê. E imagina só quantas mulheres têm acesso apenas aos serviços públicos de saúde e enfrentam transtornos psicológicos em decorrência da maternidade, mas não identificam o que estão passando? Isso somado a  preocupações como a renda da casa, problemas com o pai da criança, fim da licença-maternidade…

De acordo com os especialistas, existem motivos para que a depressão pós-parto seja desencadeada. Porém, em muitos casos, não há razão aparente para que isso aconteça. Só acontece. E acontece porque somos diferentes, enfrentamos situações diferentes e, principalmente, sentimos e sofremos de forma diferente. A minha dor não pode ser equivalente à do outro. Não dá para colocar reações e emoções na balança ou então embalar em caixinhas. E é urgente que se entenda isso para reconhecer e identificar de forma natural ou até mesmo evitar que transtornos como a depressão pós-parto aconteçam. Entendo que, quando nasce uma criança, a mulher aos poucos vai virando uma mãe. Vai aprendendo, transformando-se. É difícil, mas tentar diminuir as cobranças sobre si mesma pode ser um bom início. E para o resto ao redor, menos dedos apontados e mais ouvidos compreensivos.

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