O parto é meu

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06 julho 2017

O parto é meu

A possibilidade da escolha no momento de dar à luz


Por Lais Vieira

Um dos grandes e mais importantes momentos no processo de ser mãe é o parto. Algumas mulheres decidem pela cesárea e outras pelo normal, por diferentes motivos e contextos. Diana, por exemplo, optou pela cesárea no parto dos dois filhos. Já Fernanda quis dar à luz o primeiro filho pelo parto normal humanizado.

A decisão


A jornalista Fernanda Paranhos tomou conhecimento sobre parto normal humanizado quando, em um trabalho, percebeu o grande número de cesarianas em Uberlândia. Depois disso, começou a se informar sobre o assunto e descobriu o parto normal humanizado: “Quando eu vi aquela integração, aquele empoderamento, aquilo me cativou. Que coisa linda. Eu me identifiquei, ainda que não quisesse ser mãe”.

Ao longo do caminho, houve várias dúvidas, já que ela tem uma espécie de distrofia muscular e, por diversas vezes, foi questionado se poderia engravidar e se teria uma gravidez tranquila.

Ela engravidou e decidiu que queria ter o filho pelo parto normal humanizado, e começou a procurar profissionais que o fizessem na cidade. “O grande pulo do gato é esse, você entender as possibilidades do parto. Não que o parto normal é o correto, nem que a cesariana é errada. Eu acho que essa rixa que existe é uma grande besteira. A grande sacada desse movimento humanizado é fazer com que as mulheres compreendam a sua gestação, se compreendam, tenham conhecimento pra fazer as próprias escolhas e não se deixarem levar por outros profissionais. E procurem profissionais que, no mínimo, possam ouvi-las”, diz.

Já para a gestora de equipes, Diana Patrícia dos Santos, a escolha pela cesariana veio a partir de um medo que ela tinha do parto normal, porque, quando sua mãe deu à luz, houve uma complicação no parto, o que acabou fazendo com que a mãe tivesse uma forte crise de bronquite. “Quando eu fui decidir se ia ter o parto normal ou se ia ter a cesárea, eu decidi pela cesárea porque eu tinha muito medo do parto normal, achava que não ia aguentar”, relata.

Além disso, Diana também conta que ficou muito assustada quando soube que estava grávida da primeira filha, porque não era uma gravidez planejada. Por isso, a relação dela com a gravidez foi de medo e descobertas. Na segunda gravidez, segundo ela, estava mais tranquila e também optou pela cesárea. “Falei: ‘Vou fazer cesárea, não me arrependo e estou feliz’. Fui feliz. Não tive nenhuma complicação”.

Grande dia


Fernanda sentiu o início do trabalho de parto quando estava com a gestação em 40 semanas e um dia. Ela conta que ligou para a médica, que a atendeu e, depois, pediu para que ficasse em casa esperando. Quando a bolsa estourou, a jornalista diz que foi orientada a ir para o chuveiro a fim de aliviar uma possível dor. “Ali, eu já não consegui levantar mais. A dor vinha intensamente, dói muito. É a mais forte que eu já senti na vida, é diferente. É uma dor na alma, todo o seu corpo está focado para aquilo. É muito impressionante”, confessa.
Momento após Fernanda ter dado à luz ao filho Romeu (Foto: Arquivo pessoal)


Em seguida, de acordo com seus relatos, a jornalista sentiu uma força involuntária e instintiva que o corpo fazia para o bebê sair e foi para o hospital, onde ficou em um quarto particular. “É muito doido o momento entre uma contração e outra. Eu fiquei completamente drogada. É muita dor e eu pedi cesariana. Eu achei que não daria conta”, lembra. Fernanda conta que o apoio da doula no momento da dor foi muito importante para que ela continuasse.

No momento em que foi para o centro cirúrgico, segundo ela, aconteceu uma situação tensa. “Pelo fato de eu ter o problema muscular e flacidez uterina, o Romeu [o filho dela] encaixou rápido na pélvis”. De acordo com o relato de Fernanda,  a médica disse que, na contração seguinte, ela teria de fazer mais força, senão, seria preciso fazer a episiotomia - corte feito no períneo com o objetivo de facilitar a passagem do bebê.

“Fiz a força que eu dava conta e não foi o suficiente. Também foi preciso usar o vácuo, que é um “primo” do fórceps. Eu sou muito grata de ter tido esses recursos, e eu sabia de todos eles, não fui surpreendida com nada e ninguém me violentou obstetricamente por conta disso. Eu estava com plena consciência de que estavam fazendo o melhor pra mim e pro meu filho”, explica. Fernanda relembra que  os profissionais que a acompanharam colocaram o bebê no colo dela para o primeiro contato entre mãe e filho. “Eu nunca vou esquecer o tato da pele dele na minha, quentinha”, recorda.

No parto dos dois filhos de Diana, por terem sido cesáreas agendadas, os procedimentos foram mais planejados. Ela conta que, em ambos casos, a cirurgia foi marcada quando estava com 38 semanas de gestação. “[Na sala de cirurgia] Eles dão a anestesia e perguntam se está sentindo a perna. Se não, eles já limpam tudo, cortam a barriga e puxam o bebê”, relata.

Diana explica que os dois procedimentos foram bem rápidos. “Leva muito mais tempo depois para fechar a barriga, cortar, preparar a mulher. Aí, logo quando tira, da primeira vez, eles cortaram o cordão umbilical primeiro, depois é que eles trouxeram pra mim. Da segunda, com o cordão umbilical, eles já colocaram ele em mim, ainda tinha uma ligação entre nós dois. Foi muito lindo, foi maravilhoso”.

Diana amamentou o segundo filho, Thales, quando estava se recuperando do parto cesárea (Foto: Arquivo pessoal)

No parto do primeiro filho, Diana diz que ficou muito nervosa e agitada porque não sabia o que ia acontecer durante a cirurgia. Já no do segundo, justamente por saber como seria, afirma que ficou muito mais nervosa. Ela conta, ainda, que um dos momentos mais emocionantes do parto: “Ouvir o chorinho do neném e ver que é teu, é um milagre. Não tem nada, nada, nada nessa vida igual dar à luz. Não tem. Não existe. É surpreendente, é mágico, é maravilhoso. Aí é que você vê que Deus realmente existe”.


Recuperação


“Eu fiquei muito disposta, muito bem. Eu tive três pontos. Te dá um bem-estar que parece que você não fez nada. No pós-parto, eu fiquei super de boa. Só estava cansada”, conta a jornalista Fernanda. Ela ainda explica que teve alta um dia depois do parto e que a recuperação foi muito boa.

O pós-parto de Diana foi mais demorado por ter sido submetida a uma cirurgia. Ela diz que, durante o parto, não sentiu nada, mas que, depois, sentia uma ardência muito forte por dentro, no local onde os médicos cortaram para tirar os bebês. “Não é uma dor fácil, mas também não é insuportável, você se recupera bem. Quando falam do resguardo, realmente é verdade. Tem que guardar porque, por dentro, está tudo rasgado. E são muitas camadas de pele pra chegar. Eu acho que a recuperação é um processo mais desafiador psicologicamente falando do que a dor física”, compara. 


Dados

O número de cesarianas na rede pública e privada de saúde diminuiu pela primeira vez em 2010. Dos três milhões de partos realizados no país em 2015, aproximadamente 55,5% foram cesáreas e 44,5% partos normais.



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