Quando a maternidade se torna um fardo

Main Posts Background Image

Main Posts Background Image

06 julho 2017

Quando a maternidade se torna um fardo

Depressão pós-parto pode atingir até 25% das parturientes, mas muitas ainda não sabem identificá-la


Por Isabella Rodrigues

“A hora que ele nasceu, eu falei para a enfermeira: não quero ver, pode dar ele para alguém porque eu não quero”, conta Rosa Amélia* sobre os minutos que sucederam o nascimento do filho mais novo, Nicolas, hoje com dez anos. Ela teve depressão pós-parto aos 35 anos e lembra que viveu momentos angustiantes como esse durante e após a gestação. “Foi uma gravidez muito complicada, com alto risco. Fui internada às 7 horas da manhã e ele nasceu às 19 horas porque eu estava segurando o parto o tempo inteiro. A depressão já estava tão grande que eu não queria chegar perto dele”, relata.

Tristeza profunda, pessimismo, medo, angústia, insônia, pensamentos obsessivos, preocupação exacerbada, culpa, fadiga e sensação de incapacidade para cuidar da criança: esses são os principais sintomas da depressão pós-parto, transtorno psicopatológico que, segundo dados de 2016 da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), afeta uma em cada quatro mulheres no Brasil. O ginecologista e psiquiatra Ricardo José Victal de Carvalho afirma que a média estatística de mulheres que desenvolvem a depressão durante e após a gravidez são 12%. “É um número preocupante e, como muitas vezes a enfermidade não é reconhecida nas consultas de rotina, esse índice pode chegar a 25% das mães brasileiras”, aponta Carvalho.

O médico esclarece que, em grande parte dos casos, a paciente já tem um diagnóstico prévio durante a gestação, que acaba evoluindo no puerpério (período de seis a oito semanas pós-parto em que o corpo sofre diferentes alterações para retornar ao estado pré-gravidez). “Às vezes, a gente atende uma grávida que já vem desanimada nas consultas, que não escolheu o nome do filho ou simplesmente não demonstra felicidade com as coisas que envolvem o bebê. Então, percebe-se que essa dificuldade de lidar com a demanda biológica e social já vem de antes do nascimento e pode se agravar”, explica Carvalho.

A psicóloga Laura Oliveira Amaral também destaca alguns fatores que deixam a mulher mais propensa a desenvolver depressão-pós-parto: “Mulheres que apresentaram sintomas depressivos antes ou durante a gestação, mulheres que tiveram dificuldade para engravidar ou uma gestação de risco, aquelas que são submetidas a uma cesariana forçada, mulheres de condição socioeconômica mais baixa, que perderam um ente querido durante ou depois da gestação, quem já sofreu um aborto ou passou por conflitos conjugais”, exemplifica.


A mistura de sentimentos


Rosa Amélia está inclusa nos casos em que a depressão começou na gravidez. A auxiliar de educação básica conta que não organizou o enxoval do bebê e não conseguia fazer nada que tivesse ligação com ele. Mesmo com o sentimento de negação em relação à maternidade, Rosa explica que nunca sentiu raiva do filho. “Eu tinha vontade de sair correndo e deixar ele lá, não voltar mais e esquecer que ele existia. Quando o vi pela primeira vez, percebi que era um menino lindo, mas, mesmo assim, o amor não veio e demorou muito para vir. Nunca senti ódio, eu só não queria ele ali”, afirma.

Rosa afirma que a compreensão da família foi fundamental para ajudá-la a passar pela fase da depressão pós-parto (Foto: Ygor Rodrigues)

Uma das primeiras vezes em que Rosa sentiu afeto por Nicolas foi em um momento de desespero. “Ele teve uma crise de refluxo e começou a vomitar sangue. Fiquei assustada e levei para o hospital correndo. Naquele momento, achei que poderia perder o meu filho, então, todo o amor que uma mãe pode sentir veio ali, quando eu vi que ele precisava de mim”, assegura.

Aline Joice*, 36,  passou pela mesma situação com o nascimento do primeiro e único filho, Calebe, de três anos. Entretanto, a professora sempre teve o sonho de ser mãe. “Eu sempre quis, mas minha gestação foi um pouco agitada. Minha avó adoeceu e faleceu. Três dias após a morte dela, descobri que estava grávida. Além disso, eu queria ter tido parto normal, mas, como tenho o útero virado, precisei fazer cesariana”, relata. Logo após o nascimento de Calebe, Aline passou a desenvolver sintomas clássicos da depressão pós-parto. “Eu sentia muita tristeza, desânimo, chorava muito, não conseguia dormir à noite e muito menos durante o dia. Quase bati o carro com a barriga ainda com pontos. Fiquei assim praticamente um mês inteiro”, recorda.

Aline diz que passou por um turbilhão de emoções e era difícil compreender o que estava acontecendo. “Eu sentia amor pelo meu filho, mas, ao mesmo tempo, tinha medo e tristeza. Era uma mistura muito louca de sentimentos. Queria pegá-lo e sair andando sem direção. Eu e ele, sem rumo”, relata.

Aos poucos, a melhora


Rosa Amélia enfatiza que sempre soube que estava com depressão, mas nunca buscou ajuda. “Eu agia normalmente perante o médico e ele não percebeu como eu estava psicologicamente, mas todo mundo sabia, minha família e amigos. No fundo, a gente acha que não precisa de ajuda médica, eu pensava que era só me dopar e pronto”. 

Para superar esse momento,  a família e a religiosidade foram fundamentais. “As pessoas sofreram junto comigo. O Ygor, meu outro filho, foi de uma ajuda extremamente importante. Eu deitava no colo dele e ele me consolava. Toda minha família se preocupou e me ajudava com as coisinhas do bebê, porque eu não fiz nada. [...] Eu também recorria a um colega meu que é padre e psicólogo. Na hora das minhas crises mais fortes, eu corria para a igreja para falar com ele e ficava horas lá”, relembra. Atualmente, ela faz questão de dizer que é uma “mãezona” para o caçula. “Ele é o meu pilar e sinto que tudo isso foi uma transição na minha vida. Hoje, eu vejo ele como uma benção. Nicolas é super carinhoso, um amor de filho, me respeita e só me faz bem”, conta Rosa.

Nem todas as mulheres identificam que estão depressivas em decorrência do nascimento de um filho. Aline só entendeu o que estava passando quando assistiu a uma reportagem sobre o transtorno. “Vendo um programa matinal, pude ouvir um psicólogo falando sobre a depressão pós-parto e que era muito comum. Vi uma mãe falando sobre a sua experiência e então percebi e entendi que era grave”. 

Assim como muitas mulheres, Aline não soube identificar que estava com depressão pós-parto. Três anos depois, ela evidencia que não fica longe de Calebe por muito tempo (Foto: arquivo pessoal)

Segundo Aline, esse momento foi decisivo para buscar ajuda. “Naquele dia, percebi que o meu filho tinha um mês e eu nunca o tinha beijado. Depois de alguns meses, procurei um médico e ele me indicou uma caminhada, dormir e tirar um tempo para mim. Igual ao que eu ouvi na TV. Chorei muito quando percebi a situação, orei e pedi forças a Deus. Meu marido também estava sempre presente e foi muito paciente comigo”, lembra. Já curada, ela comenta que não fica longe de Calebe. “Falo para ele todos os dias que o amo mais do que tudo. Somos muito apegados, nunca dormimos separados”, conta Aline.

Reconhecendo que a depressão pode acontecer


De acordo com o ginecologista e psiquiatra, o pós-parto torna-se um momento delicado não só pela oscilação hormonal natural dessa fase, mas, principalmente, pela adaptação psicológica e social. “Entende-se socialmente que seria o momento mais maravilhoso na vida de uma mulher e como é que nessa fase tão especial ela vai falar que está triste? Então, existe essa dificuldade para a própria mulher entender esses sintomas, reconhecer, relatar a situação e buscar tratamento”, enfatiza Carvalho. Segundo a psicóloga Laura Amaral, “quando a mulher começa a perceber que nem tudo [na maternidade] é felicidade, ela pode começar a desenvolver essa tristeza, o choro e a irritabilidade, por não estar conseguindo dar conta de ser a mãe perfeita que todos esperam”.

Algumas ações podem ajudar a melhorar o quadro depressivo. “Definir uma medicação quando necessário, psicoterapia, prática de exercícios físicos regulares assim que possível, uma boa socialização, manifestações de espiritualidade ⎼ através da religião ou de alguma filosofia ⎼, o trabalho ou a organização das tarefas de casa e, também, algum tipo de lazer”, essas são as sugestões de Carvalho.

Para a psicóloga, reconhecer  o transtorno é importante para que a intervenção seja o mais cedo possível, e é possível tentar preveni-lo. “O apoio da família é muito importante, assim como ter o suporte de outra mulher mais experiente, como a mãe ou a sogra, para que haja identificação com alguém que já passou por todas essas transformações que a maternidade provoca. O papel do pai da criança também é fundamental para a mãe, e, se possível, frequentar grupos para gestantes para que se discutam não apenas as questões biológicas, mas as implicações sociais e afetivas que essa nova fase terá para a mulher”, indica.

Baby blues


Nos primeiros dias após o nascimento do bebê, a maioria das mulheres desenvolve o chamado baby blues, uma espécie de “tristeza materna”. Esse momento é bastante comum e natural no início da maternidade e acontece em razão das alterações hormonais, mas não deve ser confundido com a depressão pós-parto. Ouça o áudio com a explicação da psicóloga Laura Oliveira Amaral e entenda as diferenças.




*Optamos por apresentar apenas o primeiro nome das fontes para preservá-las, já que uma delas solicitou não ter seu sobrenome citado. 

Nenhum comentário

Postar um comentário

Desculpe, algo deu errado